Introdução ao site nova civilização

São Damião exorta Francisco: “Vai, repara a minha Igreja”. Um outro crucificado, em carne e osso, o amigo que ofende o que mais te importa, te faz ver que não se pode reconstruir uma sociedade em ruínas. Até mesmo Pio XII dirá: “É todo um mundo que precisa ser refeito desde os fundamentos, passar do selvagem ao humano, do humano ao divino segundo o coração de Deus” (1952). Mas somente as vítimas te convencem: “É preciso recomeçar do zero, saltando dois mil anos de incoerência com o evangelho”. Francisco reconstrói um fato religioso, você uma realidade civil. Com a fé se faz uma religião, com um povo a civilização.
Lembra o que me escrevias? “Caríssimo Fausto, você me conhece como um camponês que nunca escreve e que sempre pensa muito em meus amigos e irmãos, você de modo muito especial. Você é jovem. Eu sempre penso que você voltará logo para me ajudar” (23.4.’80). Aqui estou! Te ajudo com um site sem censura. Os sites oficiais não podem dizer tudo. Como colocar a auréola de santo em quem se vangloriava: “Na prefeitura de Módena há minha pasta: Don Zeno Saltini, rebelde à autoridade constituída”? Não há lugar para você entre os dez mil santos da curva de Bernini. Você está à vontade no porão do barco de Pedro junto aos ratos. “Enquanto houver um oprimido, Nomadelfia jurou, será oprimida. Tornar-se como eles é ter Cristo em nós”.
Por que me escolheu como testemunha do seu tormento pela revolução social de Cristo? Por que me quis ao seu lado, companheiro de viagem, ajudante, confidente? Antes de mim e depois de mim ninguém passou dias e noites bebendo a mensagem da fonte. O que viu em mim, você, que dizia conhecer um indivíduo ao vê-lo caminhar? Via que eu tomava notas, pendia dos seus lábios, assimilava sua alma. Quando eu me afastava para aliviar a compressão do seu coração, você me mandava procurar. E depois: “Por que você está sempre comigo?”. Não me dava trégua: “Vá lá, você também deve ter uma missão”. Qual? Retraçar os passos do seu amor ao povo; reencontrar as raízes da sua paixão pelo homem. Em minhas agendas estão marcados os lugares, as datas, a hora em que você me falava como se eu fosse o povo, como se eu o representasse todo.
Oh, as parábolas políticas na praça onde você estava como Deus! Eu servia de contrafigura; ou de Cireneu, válvula de escape dos tormentos; ou de conselheiro, sempre como amigo. De quantas lágrimas de alma sou testemunha! Posso me apropriar de um tesouro maior que eu? Não seria uma apropriação indevida?
Os filhos se esforçam para te seguir nos precipícios da santidade social, nos abismos da fé heroica. Você multiplica lições de espírito, Exercícios Espirituais, reuniões. Os Vademecum cheios de apelos comoventes: “Um exército que hiberna, enfraquece. O que vocês estão fazendo aqui chocando os filhos?”. E também: “Vocês querem correr para a praça para fazer de bersaglieri, para dizer o que não fazem?”.
Quantas insistências sobre o perigo das duas culturas, as duas linguagens, as duas vocações, a Nomadelfia das boas obras, a nossa, a da revolução, a sua. Agora você fala por enigmas: passagem, eremitério, barreira do som, caravana, Nomadelfia sobre rodas, tenda de circo. Tudo para colocar asas e voar para abraçar os povos.
Eu e Sante, preocupados com a idade, algumas repetições, tentamos induzi-lo a escrever um testamento secreto: “Diga-nos claramente qual é a sua vocação”. No Vademecum de Soverato você foi explícito: “Eu os torturo” (20.7.’73). “Devo escrever minhas diretrizes aos nomadelfos… Aceito este conselho, meu Senhor, eu aceito e o decido como meu testamento… Existe toda uma documentação que deve estar ligada a este testamento… que indica o caminho heroico” (1.10.’73). E quantas mensagens comoventes lhe enviamos! Você, com quase oitenta anos, já viaja para outras margens. E nós, não apenas testemunhas, mas filhos do seu contágio, que nos induz a documentar, amplificar o canto da alma.
Sua mensagem fermenta no tonel da alma. Um fósforo nos queima no coração para incendiar a floresta dos instintos selvagens. Seu amor ao povo me seduziu até me fazer circular nas veias abertas dos povos/crucificados. Você me lançou, como um pedaço da sua alma, nos braços dos oprimidos. O que fazem os povos ocidentais, a alma com colesterol, da nova civilização? Por que não oferecê-la aos povos escravos, que anseiam, inconscientemente, por um mundo novo?
Como retribuir? “Você deve voltar para me ajudar”. Te dou uma mão com meu testemunho. Porque foi você quem me deu asas para voar em busca dos irmãos/povos. Você me levou ao porão dos povos abandonados para testar, no cadinho dos condenados, a universalidade da mensagem: tornar-se irmãos enquanto povos, além da carne da família biológica; além do sangue das raças; além da vontade de domínio das pátrias, porque de Deus nascemos, como indivíduos e como povos.
Obrigado. Seus filhos, Sante e Fausto